
O Mundial de 2026 será histórico por várias razões. Será a primeira edição organizada por três países (Estados Unidos, México e Canadá) e também a primeira a contar com 48 seleções participantes.
Mas há outro dado que merece destaque: nunca tantas equipas se tinham estreado na mesma edição do Campeonato do Mundo. Graças ao alargamento da competição, quatro países que nunca tinham participado num Mundial vão finalmente realizar um sonho que parecia distante: disputar o maior palco do futebol mundial pela primeira vez.
Cabo Verde, Uzbequistão, Jordânia e Curaçau escreveram páginas douradas da sua história desportiva e garantiram presença numa competição que, durante décadas, parecia reservada às potências habituais.
A expansão do torneio de 32 para 48 seleções abriu espaço para uma maior representação de África, Ásia e CONCACAF. O resultado foi imediato: países que andavam há anos a bater à porta do Mundial conseguiram finalmente entrar.
Mais do que aumentar o número de participantes, o novo formato trouxe novas histórias, novas culturas futebolísticas e novas bandeiras ao maior palco do desporto-rei.
Para os adeptos portugueses, esta será provavelmente a estreia mais fácil de acompanhar. Cabo Verde tornou-se o quarto país lusófono a disputar um Mundial, juntando-se a Portugal, Brasil e Angola.
Os Tubarões Azuis garantiram a qualificação ao terminarem no primeiro lugar do seu grupo de apuramento, superando seleções mais experientes como os Camarões. A campanha confirmou o crescimento sustentado do futebol cabo-verdiano, que já tinha dado sinais positivos nas últimas edições da Taça das Nações Africanas.
Confederação | CAF (África) |
Melhor campanha na CAN | Quartos de final (2013 e 2023) |
Selecionador | Bubista |
Principal figura | Ryan Mendes |
Grupo | H (Espanha, Uruguai e Arábia Saudita) |
Desde a independência da antiga União Soviética, em 1991, o Uzbequistão perseguia o sonho de chegar a um Campeonato do Mundo. Depois de várias tentativas falhadas, a seleção asiática conseguiu finalmente garantir a qualificação para 2026.
Com uma geração talentosa liderada pelo defesa Abdukodir Khusanov, do Manchester City, e pelo avançado Eldor Shomurodov, da Roma, os uzbeques chegam ao Mundial determinados a mostrar que pertencem à elite do futebol asiático.
Confederação | AFC (Ásia) |
Melhor campanha na Taça Asiática | 4.º lugar (2011) |
Selecionador | Fabio Cannavaro |
Principal figura | Abdukodir Khusanov |
Grupo | K (Portugal, Colômbia e RD Congo) |
A Jordânia tentou qualificar-se para o Mundial durante décadas. Esteve perto em 2014, quando caiu no play-off frente ao Uruguai, mas teve de esperar mais doze anos para concretizar o sonho.
A geração atual já tinha demonstrado qualidade ao alcançar a final da Taça Asiática de 2023, e confirmou esse crescimento com uma campanha sólida de qualificação. O trio ofensivo formado por Mousa Al-Tamari, Yazan Al-Naimat e Ali Olwan foi decisivo para levar os jordanos ao primeiro Mundial da sua história.
Confederação | AFC (Ásia) |
Melhor campanha na Taça Asiática | Vice-campeã (2023) |
Selecionador | Jamal Sellami |
Principal figura | Mousa Al-Tamari |
Grupo | J (Argentina, Argélia e Áustria) |
Se Cabo Verde já impressiona pela dimensão, Curaçau leva o recorde ainda mais longe. Com cerca de 150 mil habitantes, será o país menos populoso de sempre a disputar um Campeonato do Mundo.
A seleção caribenha beneficiou da evolução do futebol local e de um projeto que soube integrar jogadores com ligação aos Países Baixos, como Tahith Chong e os irmãos Bacuna. A qualificação foi conquistada de forma invicta, um feito notável para uma equipa que nunca tinha estado sequer perto do grande palco.
Confederação | CONCACAF |
Melhor campanha na Gold Cup | 3.º lugar (1963 e 1969, como Antilhas Holandesas) |
Selecionador | Dick Advocaat |
Principal figura | Tahith Chong |
Grupo | E (Alemanha, Equador e Costa do Marfim) |
A história dos Mundiais mostra que a falta de experiência nem sempre é um obstáculo intransponível - uma estreia não impede uma seleção de deixar a sua marca na competição.
Portugal estreou-se com a medalha de bronze em 1966;
A Croácia também terminou em terceiro lugar na sua estreia em 1998;
O Senegal chegou aos quartos de final na sua estreia em 2002;
Os Camarões impressionaram logo em 1982;
A Islândia impressionou em 2018;
Marrocos provou em 2022 que equipas fora do grupo tradicional de favoritos podem chegar muito longe.
Nenhuma das quatro estreantes parte como candidata ao título, mas todas têm argumentos para competir. Cabo Verde apresenta uma organização defensiva sólida, o Uzbequistão possui talento individual interessante, a Jordânia chega moralizada após anos de crescimento e Curaçau transporta o entusiasmo de quem não tem nada a perder.
Num formato com mais equipas e mais vagas para a fase seguinte, uma surpresa pode estar à distância de um bom arranque.
A presença de estreantes faz parte da história dos Campeonatos do Mundo desde a edição inaugural de 1930. Algumas seleções aproveitaram a primeira participação para surpreender, enquanto outras precisaram de vários torneios para se afirmarem.
Mundial | Seleções estreantes |
1930 | Argentina, Bélgica, Bolívia, Brasil, Chile, EUA, França, Jugoslávia, México, Paraguai, Peru, Roménia, Uruguai |
1934 | Alemanha, Áustria, Egito, Espanha, Hungria, Itália, Países Baixos, Suécia, Suíça Checoslováquia |
1950 | Inglaterra |
1966 | Coreia do Norte, Portugal |
1974 | Austrália, Haiti, Zaire, Alemanha Oriental |
1982 | Argélia, Camarões, Honduras, Kuwait, Nova Zelândia |
1994 | Arábia Saudita, Grécia, Nigéria, Rússia |
1998 | Croácia, Jamaica, Japão, África do Sul |
2002 | China, Equador, Eslovénia, Senegal |
2006 | Angola, Costa do Marfim, Gana, Togo, Trinidad e Tobago, Ucrânia |
2010 | Eslováquia |
2014 | Bósnia e Herzegovina |
2018 | Islândia, Panamá |
2022 | Catar |
2026 | Cabo Verde, Curaçau, Jordânia, Uzbequistão |
O alargamento do Mundial 2026 trouxe mais seleções, mas também mais histórias. Para Cabo Verde, Uzbequistão, Jordânia e Curaçau, a qualificação representa muito mais do que futebol: é um momento histórico que ficará para sempre na memória dos adeptos.
Independentemente dos resultados, estas quatro seleções já conquistaram algo que parecia impossível há poucos anos. E quem sabe se uma delas não acabará por protagonizar uma das grandes histórias deste Campeonato do Mundo?